Eterna Menina

2 de jun de 2016


Lembro muito bem de quando eu tinha apenas quatro anos de idade. Minhas amigas eram as várias bonecas que ganhava durante todo o ano. Elas me viram ser secretária de um consultório médico no qual eu também era a médica e elas eram as pacientes. Elas me viram ser dona de uma salão de beleza. Uma fotografa renomada. Eu, elas e as paredes que limitavam o imenso quintal da casa da minha avó.

Quando eu era criança, eu me divertia com a minha própria companhia. Eu inventava mil e uma histórias. Eu sonhava alto. Não era só a cabeça que vivia nas nuvens, meu pés tamanho 33 também. Pulavam uma a uma, de um lado para o outro. E me divertia na hora de ficar sentada na janela do carro do meu pai e olhando as várias formas de uma nuvem. Já vi unicórnios, cachorros, coração, de tudo um pouco.

Eu não tinha medo de machucar, eu embarcava em qualquer aventura. Quando a minha irmã resolveu me ensinar a andar de patins, ralei os dois joelhos e a mão. Quando fui aprender a andar de bicicleta só com uma mão, caí de boca no chão e cortei os lábios. Na hora da dor eu jurava que nunca mais ia tentar fazer isso novamente, mas era só o fim de semana chegar que eu era a primeira da fila para tentar novamente. Não consegui aprender a andar de skate, mas amarrava uma corda na cintura, sentava no skate, segurava bem forte e meus amigos me puxavam. E a gente se divertia assim, durante todo o dia.

E quando a chuva caía? Na hora de voltar da escola era uma festa. Já cheguei a implorar a minha mãe para me deixar correr na chuva, e quando ela não estava por perto, eu e minhas amigas íamos correndo e pulando nas poças de água que se formavam no caminho que percorríamos da escola para casa. 

Se a roupa sujasse? Era só lavar. E se cair? Era só levantar. Machucou? Mertiolate ( e era o que ardia) nunca falhava. Quando eu era criança, o sentimento que tinha no coração era que tudo valia a pena, eram as histórias que íamos contar para os outros coleguinhas na segunda-feira que era importante. Era o riso fácil no rosto. Não tinha o medo de tentar. Tinha era o medo do que a mãe poderia fazer quando ela soubesse de tudo o que aconteceu.

Crianças não tem meio termo. Não tem condição. Ela aproveita aquilo que tem. O cenário pode não ser um dos melhores, mas a imaginação transforma qualquer areia em uma praia. 

Mas os dias passam, o quintal foi trocado pelas paredes da faculdade e do serviço. As bonecas foram trocadas pelas amigas. Bate aquele sentimento ruim de que não dá mais pra ser tudo em um só dia, agora você faz uma escolha. A pressão é tão grande ao cobrar um crescimento de uma pessoa que parece um campo minado, uma escolha errada e você perde todas as chances e tem que começar tudo de novo. Criamos um complexo de inferioridade ao ver pessoas da nossa idade tão resolvidas com tudo e a gente aqui, sem saber se é melhor tomar café com leite ou leite com toddy. 

Se você não tem um namorado. Deus nos acuda. O barco afunda e a vida acaba. Chega uma hora que nos tornamos dependente da companhia de uma outra pessoa. Sempre queremos alguém para compartilhar algo. Alguém para encontrar no fim da noite, dividir a pipoca, sonhar junto. 

E sabe de quem a culpa da vida adulta ter esse gosto amargo? Aham, é nossa.

Nós nos entregamos. Nós deixamos com que aquela criança que a gente era entrasse em um sono profundo. Porque achamos que em uma certa idade a rédea da vida tem ser controlada por alguém de pulso firme. Andar na chuva é proibido, porque vai estragar os sapatos novos. Se cair um molho de tomate na blusa nova é quase o fim do mundo. Pior ainda, se alguém quebrar o seu coração, você jura de pé junto que ninguém nunca mais vai fazer isso.

Sabe o que eu acho? Devemos voltar a ser criança. Não estou dizendo que devemos voltar a usar fralda, chupar mamadeira ou comprar um bico na farmácia mais próxima. Devemos é acender a pureza de criança que tivemos durante toda a nossa infância. Podemos ser sim, o que a gente quiser. Não por dinheiro, mas por amar aquilo que realmente fazemos. Se alguém quebrou o coração, foi um erro. Quantas vezes você caiu até conseguir andar de bicicleta sozinha? No amor também é assim, uma hora aparece alguém que vai ser o equilíbrio que você precisava. 

Mas antes de qualquer coisa, aprenda a ser sua melhor companhia. Seja para comer um prato de brigadeiro, fazer uma maratona de filmes de romance, dançar na frente do espelho ou começar um projeto novo. Eu aprendi isso, recentemente. E dou razão para a minha avó quando ela dizia: " Você não nasceu garrada em ninguém". É Vó, eu não nasci " garrada" em ninguém. E por isso eu me tornei dependente de mim mesma.

As pessoas deixaram de ser o suporte, agora são a decoração. São a soma. São a cereja do sundae, o travesseiro extra na noite fria. Eu amo cada uma dessas coisas, mas se eu tiver que viver sem, eu me viro. Minha felicidade não depende de nada/ninguém além de mim mesma. E se um dia depender, certamente eu nunca serei feliz por completo.

Se o cenário da minha vida não tiver um dos melhores. Eu vou me adequar. Vou soltar a imaginação. Vou pular que nem pipoca de um lado para o outro. Até ver o arco íris, até o sol brilhar de novo e se ele não brilhar, de viamarte ou loubotin, eu danço na chuva. 

Eu já não calço 33, não brinco de boneca, não ando de patins e não ando nas nuvens. Eu sou uma mulher, e assumo as consequência de escolher ser uma eterna menina.



3 comentários:

  1. Ual! Palmas para você!!!! The Best! Amei!
    Tem cada frase linda : ❝A imaginação transforma qualquer areia em uma praia.❞ 😍
    Beijos ✿

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  2. "Mas antes de qualquer coisa, aprenda a ser sua melhor companhia."Amei muito esse trecho <3
    Na verdade, amei todo o texto mas essa frase me tocou muito!!
    Beijos
    BlogCarolNM
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  3. Parabéns Lollinha texto lindo e reflexivo.

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